Tuesday, December 18, 2007

Deixa a água correr.

O que eu mais queria era entrar no chuveiro. Eu precisava. Eu precisava tirar o peso e a dor do meu corpo, como se isso fosse de fato possível. Sentia minha pele queimando e o que eu mais queria era arrancá-la a chegar em carne viva. Sentia cada vez mais a minha pulsação. No peito. Na garganta. E no choro. Resignado e mudo no compasso da desilusão.

A água que caía sobre meu corpo era pesada. Tinha cor, cheiro e gosto. Era cinza e me remetia a algo que não existe mais. Amargura em minha boca. E ela insistia em cair. Olhando as gotas caindo uma a uma no chão, não sabia diferenciar quais delas eram de fato minhas e quais delas vinham do chuveiro. Como se por um instante ele pudesse entender a minha dor. Humpf. Quanta bobagem.

Só sei que em determinado momento, não sentia mais nada. Meu corpo parecia anestesiado. Meu olhar era fixo, mas não mirava nada. Estava perdida em meus próprios pensamentos. E meus pensamentos fizeram me perder no vazio. Pois foi isso o que me restou. Um vazio. E sabe, eu acho que o vazio dói muito mais. Um vazio sem motivo, sem entender. Auto-explicativo.

Minha pele já começava a ficar enrugada pelo tempo demasiado no banho. E eu não tinha a mínima vontade de sair. a minha vontade era de ficar lá, imóvel, estática, sem pensar nada, sem sentir nada. Apenas deixando a água correr. Quem sabe ela não leva minha dor embora?! Quem sabe ela não inunda o vazio do meu peito?! Quem sabe ela rega a semente da esperança que se perde dentro de mim?!

Deixa a água correr e limpar este âmago machucado. Deixa fazer carinho e esquentar esta pele. Deixa te afogar antes que a dor te sufoque. Deixa a água correr. Pois dizem que apesar de tudo existe uma fonte de água pura. Quem beber daquela água, não terá mais amargura...


*trechos destacados fazem parte de "Dança da Solidão" (Paulinho da Viola)

2 comments:

Anonymous said...

esse ficou bonito...
esse tem sua carinha.

Jim Selva said...

"E a mão, a traçar movimentos vazios, no espaço vazio..."