Como não podia ser diferente ao longo dessa semana, choveu muito em São Paulo. Demasiadamente. Muito, mas não o suficiente, porque embora o mundo caísse lá fora, o calor continuava. E para variar, chove sempre mais forte na hora de ir embora. Aquele dia não podia ser diferente. Por isso tratei de me apressar para pelo menos chegar ao ponto de onibus intacta, ou sob condições aceitáveis de convivência social. É, pelo menos isso eu consegui. Não tive tanta sorte ao descer do ônibus. Havia ainda um pequeno caminho a pé até o metrô. A chuva era forte, e fria. Em outras situações, eu teria ficado e aproveitado um pouco mais, mas não hoje. Hoje eu só queria ir para casa.
Por isso decidi apertar o passo para não me molhar tanto assim. Ao chegar na estação, ainda tive que torcer um pouco o cabelo e sacudir um pouco os chuviscos da roupa. As poucas pessoas que lá se encontravam também faziam o mesmo.
Eu sempre achei essa estação diferente. Tem um longo corredor até o embarque e cada dia tem alguma coisa diferente para distrair, seja uma exposição de fotos, reprodução de algumas obras de arte, ou informativo do ministério da saúde sobre os malefícios da obesidade infantil - coisa no mínimo óbvia, se levarmos em conta o nome da estação. E nos dias chuvosos, ela fica ainda mais vazia, fria, cinza e solitária. O vento gelado que sabe-se lá de onde veio colaborou ainda mais para o arrepio em minha alma.
E passo após passo eu fui caminhando. E a cada passo ecoado no vazio, me fazia me sentir ainda mais sozinha. O barulho da chuva apertara e me fizera pensar no transito que eu ainda teria de enfrentar - pelo menos o metro estaria mais vazio, devido ao horário mais tarde. Tentava afastar os pensamentos da mente, quando de repente - talvez a segunda pessoa a caminhar naquele corredor quase assustador - escuto passos firmes, ocos e mais graves. Passos masculinos certamente. Pensei em olhar para tras para conferir se estava boa de palpite, mas ele me surpreendeu e mais de repente ainda do que apareceu, ele começa a assoviar uma música. Em tom alto, claro e firme. E não era qualquer música, era a música mais assoviável ever: Patience, do Guns´n Roses. E como num passe de mágica, toda a letra veio na minha cabeça. E com ela, várias outras imagens e sentimentos. Todo um passado. Que não volta mais.
A música me acompanhou até o final do corredor, passou comigo pela catraca, desceu as escadas rolantes e - felizmente - ia para a mesma direção que a minha. aguardou junto comigo a chegada do vagão e nele me fez companhia. Sentou em "L" comigo. E ao sentar, o silêncio. Era a minha deixa.
- Sabe, eu também gosto muito dessa música.
- Sim, ela é muito bonita. E nos mostra o quanto é importante ter paciência para alcançarmos o que queremos.
Na verdade, eu queria falar-lhe que não acreditava mais nisso. Que minha paciência tinha acabado e que por mais que eu tentasse ser otimista, o destino provava que estava errada. Que confiei demais. Que acreditei demais. Que gostei demais. Mas que não foi nada de mais. Foi apenas para passar o tempo, não foi isso?!
Mas eu resolvi concordar com um tímido sorriso. E com um nó na garganta, acompanhei o seu cantarolar.
I've been walking these streets at night
Just trying to get it right (Need some patience, yeah)
It's hard to see with so many around
You know I don't like being stuck in a crowd (Could use some patience, yeah)
And the streets don't change but maybe the name
I ain't got time for the game
'Cause I need you (Patience, yeah)
Yeah, yeah well I need you
Oh, I need you (Take some patience)
Whoa, I need you (Just a little patience is all we need)
Ooh, this ti- me....
2 comments:
"Mas eu resolvi concordar com um tímido sorriso. E com um nó na garganta, acompanhei o seu cantarolar."
estilo aqueles filmes de drama que te faz acompanhar sem piscar os olhos :)
que música é essa?
:***
Muito cena de filme ou capítulo de livro mesmo.
Sua poesia em forma de prosa anda cada vez melhor, Ju.
:** (com saudade já)
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