Sabe, eu adoro andar de metrô. Não porque eu ache muito mais rápido e mais eficiente que os ônibus e lotações. Também. É no metrô aonde posso praticar um dos meus hábitos favoritos: observar pessoas. Mas não com a intenção de procurar por rostos bonitos e interessantes, e sim, simplesmente pelo fato de observar os diversos modos de personalidades e comportamentos do próximo.
Parece que cada vez que faço este exercício, eu escolho um tipo ou um aspecto a ser observado. Dessa vez eu escolhi os velhinhos ou as pessoas que aparentam ter mais idade. E, infelizmente, o que pude ver não foi tão confortante assim.
Primeiro pela manhã, em que os vagões estão um absurdo de cheio e de fato desmentimos as leis da física em que dois corpos não podem coexistr concomitantemente no mesmo lugar. Para que um idoso consiga entrar no vagão de modo seguro vai tempo - hoje presenciei uma velhinha praticamente ser esmurrada na porta do metrô, e obviamente que o ameba que fez isso levou umas leves cotoveladas desta que vos fala, coincidentemete - sem contar, em toda a dificuldade de locomoção no interior do vagão que eles enfrentam.
Ok, dentro do metrô - não importando de que maneira - chega outro desafio: encontrar uma alma caridosa a ceder seu lugar sentado. É engraçado como as pessoas - especialmente as que erroneamente estão sentadas nos assentos cinzas - ao virem um idoso entrando geralmente desviam seu olhar para o nada ou fingem estar concentradas em outra coisa para assim, esquivar-se da culpa de falta de educação. Aí, felizmente existem algumas pessoas que possuem certo discernimento na cabeça e não titubeiam em oferecer seus lugares aos velhinhos. Estando eles nas cadeiras cinzas ou marrons.
Passemos à análise de semblantes. Acho que posso contar nos dedos aqueles que me pareceram de certa forma "normais" e felizes. A grande esmagadora dos que pude observar hoje possuíam a feição cansada, melancólica, quase suplicante. Provavelmente estes possuem uma rotina diária tão exaustiva e puxada como a maioria da "população economicamente ativa" possui, para que desse modo garantam a sobrevivência dos filhos, netos e a si próprio. E vou além, a melancolia não vem só disso, mas de inconformidade na sociedade em que vivemos, na qual os idosos são cada vez mais esquecidos e afastados do convívio social.
A sociedade brasileira é uma sociedade sem consciência histórica, sem respeito ao passado, sem planejamento e educação. E parece ninguém se importar com isso. Tudo soa como a ordem natural das coisas: as pessoas nascem, crescem, envelhecem e morrem. E assim deve ser. Já vi tanta gente reclamando pelas ruas de um senhor no trânsito, de uma senhoria que lentamente anda pela rua, por "roubarem" assentos nos transportes públicos, de se aproveitarem dos privilégios em filas, bancos e atendimentos em geral... Mas, os idosos seriam de fato um estorvo a nossa sociedade?!?! Merecem eles o nosso esquecimento?! Devem eles ser privados da cidadania e convívio social?! Não deveriam eles receber nossa atenção e fraternidade, justamente por tanto fazer para os que tanto agora condenam e por merecerem um descanso confortante após tantos anos de batalha pela sobrevivência num país como nosso - e como outro qualquer?!
Sei não, espero não envelhecer... ou então, esquecer que isso faz parte de cada um de nós, inevitavelmente...
2 comments:
também gosto de transporte público apenas para observar pessoas - é quase uma arte, não?
texto lindíssimo, tão delicado! :*
(esquecendo a parte triste da situação toda)
Mais um observador do gênero humano nos metrôs da cidade. Pensei que a loucura fosse só minha... Ufa!
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