Sunday, October 28, 2007

Tudo sempre tem o seu sentindo

E seus sapatinhos de cristal contrastavam com o negro azulejo sob seus pés. O vestido rodado já não lhe fazia mais sentido. O vasto corredor seguia-lhe até o findar da vista. A única maneira de sair é atravessá-lo, enfrentá-lo. Um passo após o outro e ela tem certeza de que cada vez mais está perto da solução.

As paredes são brancas e altas. Talvez cheguem à altura de um prédio de 4 ou 5 andares, ela pensou. São diversas portas vermelho-escarlate que acompanham o corredor, dos mais diferentes tipos, formatos e tamanhos. Num primeiro momento, ela tentou abrir uma a uma, explorá-la, invadi-la e descobrir qual a singela singularidade de cada uma. Em vão. A cada porta, uma realidade diferente que, pelo menos para ela, impossibilitaria qualquer tipo de comparação. Encontrou portas trancadas dessas de se desistir rapidamente, portas emperradas que por algum momento lhe deram esperanças, portas pequenas talvez por segurança, portas grandes mas para um ambiente vazio, portas ilusórias, portas sem função nenhuma e até portas abertas, que a fizeram acreditar levar à saída, mas não a levaram a lugar algum.

Agora, entende ela, sabe que a única porta que a tira do corredor cinzento é a que carrega em si mesmo, e assim ela segue adiante pelo corredor. E depara-se com uma gigantesca e imponente escada. Em caracol. Ao tentar visualizar o final de suas voltas, ela sentiu-se zonza e viu-se obrigada a sentar na beira do primeiro degrau. Sim, ela sabe que é a única saída. Ela toma fôlego, descalça os sapatos que há tanto vêm lhe machucando. O vestido já não está tão vivo, limpo e alinhado, mas isso não faz mais diferença como outrora fizera.

E, num último relance, ela olha para trás com o seu característico e marcante olhar. Um olhar-último-olhar pois ela sabe que não voltará a enxergá-lo como o enxergou hoje. Na verdade, lamenta-se a si própria esse último olhar, esse é o único olhar que ela tem ultimamente. Tudo tem o agridoce gosto do fim. E, embora seja a grande culpada disso, ela sabe que este olhar também é reflexo das experiencias já vividas e que tanto a tocaram.

Mas é hora de seguir em frente. Os sapatos já não lhe machucam mais e ela não precisa mais deles. Na verdade, ela começa a sentir um pequeno alívio em estar descalça. Mas penosamente, ela desce. Degrau por degrau. Ela já não sente mais as tonturas e no desenrolar das voltas, quando enfim ela enxerga a sua porta. Ela é pequena e estreita. Do seu tamanho. Está um pouco suja e talvez um pouco enferrujada. Mas é a SUA porta, para o seu mundo.

E como se um sopro, ela suspira: "ich bin dein labyrinth"

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